Outubro Rosa: Uma primavera de mulheres incríveis floresce na música brasileira

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Outubro Rosa: Uma primavera de mulheres incríveis floresce na música brasileira

“Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim”, o trecho de “Maria da Vila Matilde” é apenas um dos versos incríveis de “A Mulher do Fim do Mundo”, mas que simboliza toda a força do disco que não se cala diante da violência contra a mulher, do racismo e do machismo. Foi esse disco que, no ano passado, coroou Elza Soares, no auge dos seus 78 anos, como a Cantora do Milênio. Negra, mulher e feminista, Elza há décadas vem fazendo do seu canto um mecanismo para se empoderar e também para fortalecer outras mulheres. Hoje, felizmente, além de Elza, floresce uma primavera de mulheres incríveis na nova música brasileira. Yzalú, Larissa Luz, Iara Rennó, Salma Jô (Carne Doce) e tantos outros nomes são destaque esse ano ao cantar sobre e para mulheres. Para divulgar ainda mais estas artistas, nesse outubro rosa, nós fizemos uma playlist tropical e poderosa no nosso Spotify com artistas incríveis que surgiram nos últimos tempos.

Clique aqui para conferir a play que preparamos no Spotify!

 

1 - “Minha Bossa é Treta”, Yzalú

Yzalú carrega nas longas tranças a força das mulheres que abriram caminho para ela: Dina Di, Lauryn Hill, Elza Soares, Gal Costa e tantas outras que a influenciaram. Batizada Luiza Yara Lopes Silva, a rapper vem chamando a atenção do público desde 2012 quando lançou o vídeo da música “Mulheres Negras”, mas foi só esse ano que ela lançou o seu primeiro disco “Minha Bossa é Treta”, lançado no dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher.

O disco é a concretização de um trabalho feito pela cantora desde os 15 anos de idade, hoje ela tem 33. O álbum relata o cotidiano das mulheres periféricas, negras e milita a favor do feminismo negro, contra o racismo e também faz um protesto contra a revista vexatória, utilizada nos presídios brasileiros até hoje. Na capa do disco, por exemplo, a cantora aparece nua, na posição em que os presos devem ficar quando são revistados. Além disso, a foto é uma homenagem à um retrato de Gal Costa nos anos 1970. A musa da MPB é uma das principais influência de Yzalú, que faz um rap genuíno acompanhado por violão. Para completar, a capa icônica, expõe a perna direita da cantora, uma prótese, que utilizada por ela desde que nasceu.

“Minha Bossa é Treta” é de uma sensibilidade sem tamanho. Traz para o holofote pautas negligenciadas e dá voz para uma parcela da sociedade que historicamente foi silenciada. E merece seu play :)

2 -Larissa Luz

“Nem vem como quem quer fazer de mim ninguém. Eu sou uma mulher livre de sina e da obsessão. Eu sou o que quiser”: é assim que Larissa Luz abre a faixa título do seu segundo álbum, “Território Conquistado”, lançado em março deste ano. Não é só neste trecho que a baiana deixa clara a sua mensagem. Em “Meu Sexo”, ela canta “Despudorada. Empoderada. Eu não abro mão do meu sexo”. E na faixa “Descolonizada”, manda um “Eu quero voar, escrever meu enredo. Liberdade é não ter medo”.

Nós poderíamos citar aqui boa parte deste álbum incrível, de empoderamento, principalmente das mulheres negras. Afinal, o tema não é citado só nestas faixas, mas está presente em cada uma das dez canções do disco que carregam referência que vão desde o cinema nigeriano, presente na letra de “Nollywood”, à escritora Carolina de Jesus, em “Letras Negras” e passagens que dão luz ao ícone da luta negra, a cantora Nina Simone. Todas as referências misturadas a trap, dubstep, rap e rock de altíssima qualidade. É muito amor.

 

3 - Iara Rennó

Iara Rennó não lançou apenas um, mas dois discos ao mesmo tempo em junho deste ano. “Arco” e “Flecha” são diferentes, mas complementares. O disco “Arco” é feminino,“Flecha” é masculino. O primeiro foi tocado por uma bandas só com mulheres - Iara na guitarra, Mariá Portugal na bateria e Maria Beraldo Bastos no claro. Enquanto o segundo foi executado por homens, incluindo Curumim, Lucas Martins (Céu) e Maurício Fleury (Bixiga 70). Embora os discos estejam separados por gênero, a cantora não os limita a classificar apenas dessa maneira - há momentos que um pode ser mais feminino e outra mais masculino ou até mesmo trans.

Porém, o disco “Arco” é o que mais chama a atenção para a libertação da mulher através do empoderamento dos corpos femininos e da liberação sexual. Temática que já vinha sendo explorada pela cantora no livro de poemas eróticos “Língua Brasa Carne Flor”, lançado pela editora Patuá, em 2015. O single do disco “Mama-me”, um contraste a “Querer Cantar”, single do álbum “Flecha”, é um manifesto em relação a liberdade do corpo feminino. No clipe, a cantora e um elenco que conta com Bárbara Eugênia, Alice Ruiz, Juliana Perdigão, Assussena Assussena e várias outras artistas, representam as “mulheres de peito”. E dão um spoiler do que você vai ouvir no álbum completo.

4 - Aíla

“Não vou me calar. Eu vou gritar. Se insistir, eu vou berrar mais alto”: Aila Magalhães é um dos nomes que surgiram na cena paraense nos últimos anos e não, ela não é de se calar. Em agosto, a artista, de timbre marcante e presença forte de palco, lançou o seu segundo álbum “Em Cada Verso um Contra Ataque”. E o título do álbum não mente. Do início ao fim do disco, as canções combatem o assédio, o racismo e exploram questões de gênero, do amor livre e do feminismo.

No seu novo álbum, a cantora não quebra só paradigmas nos versos, mas também no som. Ela explora o pop, distorções do rock, dubs graves e beats eletrônicos, misturados a música tradicional do Pará. De quebra, ainda rolam participações especiais como a do Chico César em “Melanina” e da rainha do carimbó, Dona Odete, em “Lesbigay”.

5 - Tássia Reis

Tássia Reis e o seu “rap jazz” vem conquistando fãs desde 2014, quando a cantora lançou o seu primeiro álbum. Devido ao sucesso do primeiro disco, hoje a paulista é uma das promessas do rap nacional e usa este espaço para falar com um discurso articulado sobre feminismo, racismo e a importância da identidade da mulher negra.

O seu novo disco “Outra Esfera”, lançado em setembro, ora é rima, ora é canto leve. É um daqueles discos suaves, leves, que passam rápido e quando você vê já acabou, mas que ao mesmo tempo carrega poesias políticas poderosas e necessárias. Como em “Ouça-me”, música em que Tássia canta que a revolução será crespa e que não passará na TV. Ou ainda em “Desapegada”, onde ela parafraseia: “Tão solta quanto o vento indica, voando por onde se quer e vai querer. Ninguém manda na tua vida. Ela criou um jeito novo de viver”. Toda essa poesia costurada por influências do neo-soul de Erykah Badu, por clássicos da soul music como Nina Simone e por referências atuais da música brasileira como a cantora Juçara Marçal, do Metá Metá.

 

6 - Carne Doce

Nós já falamos do Carne Doce aqui, em um post sobre a nova cena de Goiás. Na época, a banda recém havia lançado o seu primeiro e excelente disco. Em entrevista, os goianos contaram que o primeiro disco serviu para mostrar ao que a banda veio. Agora, com mais reconhecimento, no segundo álbum foi possível escolher um tema. Salma Jô, vocalista e compositora da banda, não teve dúvida, ela tinha que falar sobre mulheres. “Princesa” nasceu pra reivindicar o lugar de fala dessas mulheres, pra falar sobre a descoberta sexual e psicológica de todas nós e também para valorizar e incentivar essas mesmas mulheres a não se calarem.

Salma Jô é porta voz de todas essas questões, mas não deixa as suas de lado. Dos cantos políticos as inquietações internas, ela se pergunta sobre o que é ser mulher e estar na frente de um palco. Em “Falo”, por exemplo, ela denuncia o sexismo na música independente brasileira. Em “Artemísia”, primeiro single do álbum, a banda tenta desmistificar o aborto através de uma letra linda, leve. Para completar, o álbum todo foi inspirado por uma personagem, uma princesa anônima, criada através da obra de Beatriz Perini, vista na capa do disco. Que sutileza ♥

 

7 - Serena Assumpção

Por último, não poderíamos deixar de prestar uma homenagem a Serena Assumpção. Desde 2009, a artista vinha preparando um material para registrar as canções dos orixás cantadas nos terreiros de candomblé. Para gravar o disco, Serena se cercou de amigos. Tulipa Ruiz, Tatá Aeroplano, Karina Buhr, Anelis Assumpção, Curumim, Juçara Marçal, Moreno Veloso, Bem Gil, Tetê Espíndola, Céu, Mariana Aydar, Filipe Catto e tantos outros que fizeram parte do álbum.

Acontece que antes do disco ser lançado, Serena, que lutava contra um câncer desde 2011, nos deixou, em março deste ano. O disco póstumo, “Ascensão”, não poderia ter saído diferente depois de passar por tantas mãos talentosas: nasceu com uma energia que nao dá nem pra explicar. O disco é de uma beleza, de uma sutileza que não cabe em palavras. Da grandeza da Serena ♥

 

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