Por Que Não Couro?

Por Que Não Couro?

Quando falamos dos problemas envolvendo a produção de produtos de couro, muitas pessoas costumam reagir com a seguinte frase: “mas se já mataram a vaca (o porco, o bezerro e a ovelha) para carne, por que não aproveitar o couro”?

Em partes, esse raciocínio faz sentido [1]. Principalmente no Brasil, a produção de gado de corte e leite é gigantesca, uma indústria valiosa que acaba resultando também em uma indústria de pele bovina igualmente rica. Pelo ponto de vista do direito dos animais, realmente não faz sentido consumir carne e laticínios, e ser contra o couro, já que a interdependência deles é inegável (por exemplo, na Índia, onde o couro bovino é o do búfalo, e a carne desse animal é extremamente barata, o couro chega a valer 10 vezes mais do que a carne. O aumento da exportação de carne e couro de búfalo aconteceu organicamente pela grande demanda de leite).

Isso não quer dizer que estamos negando o poder da indústria do couro, principalmente a brasileira.  Sua influência é tão forte por aqui que ela conseguiu passar uma lei que proíbe nomenclaturas como “couro sintético” e “couro vegetal”. As lojas não podem usar essas nomenclaturas com risco de serem multadas em alguns mil reais se forem pegas na chamada “blitz do couro”.

 

MEIO-AMBIENTE

Do outro lado da história, o couro não deixa de ser um símbolo de exploração animal, mas, mais do que isso, é um símbolo de desastre ambiental. Para transformar uma pele animal, cuja putrefação acontece rapidamente após o animal perder a vida, é preciso uma boa dose de insumos químicos altamente tóxicos, poluentes [2], e responsáveis por gerar uma porcentagem de resíduos ainda não totalmente tratáveis, como cromo, arsênico, e outros metais pesados.

Kanpur, na Índia, virou um dos maiores fornecedores de couro do mundo [3]. Em contrapartida, a cidade está em acelerado processo de devastação, com rios totalmente intoxicados com os resíduos dos curtumes, pessoas doentes, crianças nascendo já com deficiências e uma população à mingua, cuja única água disponível para beber está contaminada de cromo. Um inegável desastre socioambiental retratado no premiado documentário “The Toxic Price Of Leather”.

“What Are Your Shoes Stepping On?” é outro documentário sobre o tema, mas que se concentra em retratar um curtume que fornece couro para empresas produtoras de sapatos na Europa. Em português, a matéria “Como O Couro Está Matando Lentamente As Pessoas E Os Lugares Que A Produzem”, fornece números globais da indústria do couro e toca em suas questões socioambientais.

 

SINTÉTICO OU NATURAL?

No Brasil, a situação não é tão escrachada e existem leis de proteção ao meio ambiente. Mas, questionamentos sobre a fiscalização efetiva da lei à parte e não deixando de lado a tragédia do Vale dos Sinos, já é amplamente entendido que na equação total de prós e contras, a produção de materiais sintéticos, com exceção do PVC, é menos prejudicial às pessoas e ao planeta do que a produção do couro. Produzir couro consome 20% mais energia do que produzir um material oriundo do petróleo, como o PU [4]Em todo o seu ciclo, o impacto do ambiental “couro” sintético representa apenas 1/3 do impacto ambiental do couro.

Quando falamos de descarte, ambos são prejudiciais ao meio-ambiente quando estão apodrecendo em aterros sanitários. Aterros sanitários são ambientes isentos de condições ideais (tipo: oxigênio) para que materiais com propriedades biodegradáveis possam, de fato, se biodegradar. O que deixa pouca vantagem para o couro. O couro degrada mais rápido, porém emite os mesmos gases poluentes e ainda conta com o agravante dos metais pesados usados em seu curtimento.

 

COURO DE CACHORRO?

Como já falamos por aqui, é de conhecimento da maioria que na Ásia, principalmente na China e na Coreia, é completamente normal matar cachorros para comer. O couro logo é aproveitado pela indústria da moda chinesa, que fornece roupas e produtos para o mundo todo, normalmente sob o nome de “couro de cordeiro” (porque no ocidente vender couro de cachorro pega mal).

Você pode se sentir ok usando couro de vaca, porco, peixe e ovelha, mas você se sentiria tão bem quanto se soubesse que a sua carteira foi feita de couro de cachorro? Sabemos que muitas pessoas não se sentiriam e essa é mais uma maneira a qual a indústria global do couro pode ser, digamos, hábil em descumprir as leis.

 

MAS QUAL EU DEVO ESCOLHER?

Ao decidir entre um produto de couro e um produto sintético, é importante ponderar não só questões sociais, animais e ambientais, mas também entender seu hábitos de compra. Na matéria “Couro Ou Sintético? O Que Levar Em Consideração Antes De Fazer A Sua Escolha” lá no Modefica, nós dissecamos todas as dúvidas que podem surgir sobre o assunto. Falamos sobre curtimento vegetal, látex e outras alternativas.

Em suma, a escolha entre um produto de couro e um produto sintético (ou vegetal) deve ser feita com o auxílio de informações diversas. Não deixe as marcas fazerem a escolha por você. Não tem uma linha clara e inquestionável que divide o sim ou não, “do mal” e “do bem”. A nossa dica é: pare, entenda e reflita; só depois decida.

Esclarecimento De Fontes:

[1] É difícil chegar em números oficiais, mas estima-se que a pele da vaca vale 10% do seu total (é possível entender um pouco nessa análise detalhada do USDA). A partir desse raciocínio, o couro torna a indústria da carne das vacas mais economicamente sustentável (já que vender o couro acaba sendo mais lucrativo do que vender a carne).

[2] Outra prova da potencial toxicidade dos curtumes é Hazaribagh, em Dhaka, Bangladesh, ter sido listada pelo Instituto Blacksmith, em 2013, como uma das 10 ameaças tóxicas do mundo. Dos 270 curtumes localizados em Bangladesh, cerca de 90% deles estão localizados em Hazaribagh.

[3] Segundo levantamento do IBGE, divulgado em outubro de 2015, a Índia está em primeiro lugar no ranking de número de cabeças de gado no mundo, ganhando do Brasil, na 2º posição com 212,3 milhões de animais. Entre os anos de 2014 – 2015, a Índia foi responsável por exportar 6,5 bilhões de dólares em couro (os números brasileiros não somam nem a metade: 2,94 bilhões) e o país é reconhecido por abocanhar entre 5% a 12% da demanda de couro em países como Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, Itália, França e Espanha.

[4] Lucy Siegle, To Die For – Is Fashion Wearing Out The World?, editora Fourth Estate (2011)

Artigo atualizado em 17/05/2017 às 11:27hr.

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