Orgânicos São Mais Caros?

Orgânicos São Mais Caros?

O Brasil tem vastas áreas de plantio agrícola. Com isso, surge a falsa sensação de que nossa terra é fértil e que os alimentos que são plantados por aqui são muito puros. Com o sentimento de superioridade típico do vizinho que tem sempre o jardim mais verde, pensamos: agrotóxicos, transgênicos e criação intensiva de animais para abate são exclusividade dos norte americanos. Criamos a ilusão da segurança alimentar.

Com esse pensamento continuamos fomentando o uso de venenos na produção de comida. Nossas lavouras consomem um milhão de toneladas de agrotóxico por ano, uma média de 5,2 kg de agrotóxico por habitante. Enquanto isso, a Dinamarca se prepara para transformar 100% de sua agricultura em orgânica com metas realistas: a primeira fase acontece até 2020, quando a quantidade de terras com plantações orgânicas deve ser o dobro da quantidade atual. Por aqui os incentivos governamentais só chegam para os produtores que usam agrotóxicos (isenção de IPI e redução de 60% do ICMS). Os produtores de orgânicos não têm nenhum desses benefícios.

As frutas, verduras e legumes orgânicos ganharam a fama de produtos mais caros que os convencionais. Mas será que são mesmo? Pra resolver essa questão, foi idealizada a pesquisa “Alimentos sem veneno são sempre mais caros?”. O trabalho foi executado de forma colaborativa e voluntária por grupos e institutos de consumo responsável como o Instituo Kairós e a ONG Terra Mater. Foi realizado um levantamento de preços de produtos convencionais e orgânicos em supermercados, feiras orgânicas e grupos de consumo responsável (consumidores que se juntam para fazer compras coletivas diretamente do produtor) por um ano em 5 cidades do país.  A conclusão da pesquisa é de que a diferença de preço depende muito do canal de comercialização.

O preço médio de uma cesta com 17 produtos sem agrotóxicos (entre eles abacate, abobrinha, alface, banana, cenoura, tomate, ovos, etc.) no supermercado é de R$144,00, enquanto na feira de orgânicos é de R$98,00. Nos grupos de compra coletiva é onde se conseguem os melhores preços, a cesta custaria R$69,00. Esse valor é mais favorável, inclusive, quando comparado com os produtos convencionais no supermercado, onde a mesma variedade custaria R$70,00. Sendo assim, a compra direta, sem intermediários, mostra-se mais vantajosa e oferece uma alternativa para tornar acessíveis esses alimentos. A pesquisa completa pode ser lida aqui.

Se alimentos vegetais orgânicos são mais caros nos supermercados, deveríamos questionar por que os convencionais e os ultra-processados são tão baratos. Além dos incentivos fiscais já citados, esses produtos não consideram fatores externos como, por exemplo, os danos a saúde dos trabalhadores rurais. Isso quer dizer que o impacto social e ambiental dessa produção não se reflete no preço. A conta é deixada para nós pagarmos, em forma de impostos para remediar os danos causados por este modelo. A escolha entre um e outro pode ser uma escolha política, onde o consumidor decide qual modelo de produção e de negócio prefere financiar.

Quem não quiser abrir mão da comodidade (que resulta em pagar um preço mais alto) pode repensar a maneira como consome para conseguir economizar. Uma outra lógica na cozinha pode começar com o desperdício zero, ou seja, comprar apenas o que for consumir, sem deixar alimentos estragarem na geladeira e aproveitando integralmente todas as partes dos alimentos (como talos, cascas e folhas). Plantar algumas ervas e vegetais também pode trazer um descanso para o cartão de crédito. A gente falou sobre isso no texto “Jardinagem também é uma forma de ativismo“. De qualquer forma, precisamos cobrar dos governantes medidas mais justas e sustentáveis de subsídios para a produção rural.

 

Fernanda Cannalonga

<p>Fernanda Cannalonga é colunista de estilo de vida consciente, ela acredita no poder transformador da informação. Tenta viver uma vida alinhada com seus valores, é vegetariana, consome alimentos orgânicos e faz seus próprios cosméticos. Fundou a Canna, marca de bolsas veganas e criou a Jornada Beleza do Bem, para ajudar quem deseja fazer escolhas melhores em relação a sua rotina de beleza.</p>

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