“Hoje dormi chorando”- a violência de gênero que não é vista a olho nu

“Hoje dormi chorando”- a violência de gênero que não é vista a olho nu

Você já parou para pensar que aquela dorzinha de cabeça que não passa com nada, o coração constantemente acelerado e a sensação de medo sem motivo aparente podem ter um motivo que merece atenção especial? No mês passado eu falei sobre relacionamentos abusivos, e hoje proponho que a gente evolua esse debate para algo mais profundo, mas ainda pouco discutido: a saúde mental da mulher vítima de violência – seja ela física ou psicológica.

 

Transtorno pós-traumático, ansiedade, depressão, fadiga, dores, falta ou excesso de apetite, bulimia, anorexia, insônia. Eu poderia ficar aqui falando uma lista de possíveis transtornos mentais causados ou potencializados pela violência, mas como eu não sou psiquiatra ou psicóloga, não compete a mim dar diagnósticos. Como feminista, meu esforço é para que as mulheres vejam que não estão sozinhas e saibam a quem recorrer quando as coisas não vão bem. E para que saibam que aquela melancolia crescente e contínua, pode não ser só “uma bad” e merece uma atenção especial.

 

E ai você pode me falar: “Ok, Gabi, já sei de tudo isso, vejo posts no Facebook todos os dias, já aprendi que depressão não é frescura”. Mas será que nós aprendemos, mesmo? A saúde mental é um tabu. E o que é um tabu, senão um tema ao qual nos fechamos, pautamos valores morais e impomos sentimento de vergonha? Neste cenário, o tema se torna algo que não devemos falar em voz alta. Ter conhecimento sobre a importância deste tema é parte da nossa educação sobre meios de combate à violência contra a mulher. Precisamos ter em mente os impactos da violência em diferentes setores da sociedade, como a saúde pública e a economia.

 

Porém, mais do que isso, precisamos aprender a cuidar de nós mesmas, para detectar e tratar transtornos da maneira correta e com profissionais aptos a tal. Agressões, sejam elas sutis ou explícitas, são promotores de sofrimento psíquico, e adoecem as mulheres silenciosamente.

 

Não sou eu que estou falando isso aleatoriamente, viu? A neuropsicóloga Adriana Mozzambani pesquisou sobre a saúde mental de mulheres expostas à violência de gênero, estudando vítimas que procuravam a delegacia da mulher, partindo do princípio que o medo diante de um parceiro violento é um dos empecilhos que mulheres sofrem para quebrar o ciclo da violência. A tensão constante tem efeitos nocivos na psique humana. No caso da violência de gênero, isto pode fazer com que mulheres tenham sua autoestima afetada de modo permanente.

 

Eu sempre faço um apelo para que as pessoas sejam curiosas e procurem estudar mais sobre saúde mental, de modo que se livrem dos próprios preconceitos e se tornem multiplicadoras de conhecimento, ajudem a si mesmas e quem estiver precisando de apoio. Diferente de um corte ou uma gripe, transtornos mentais são machucados que não enxergamos. Não podemos subestimar ou ter medo de falar sobre tristeza, angústia e apatia. Estes sinais são importantes e jamais devem ser negligenciados. Na dúvida, SEMPRE consulte um especialista da área, faça um acompanhamento, e lembre-se sempre: você não é culpada por se sentir mal.


<p>Relações públicas com 11 anos de experiência em comunicação corporativa e comunicação digital, formada em estudos do idioma e da cultura árabe e especialização em Sociopsicologia.<br /> Co-fundadora do coletivo Não Me Kahlo, com o qual lançou o livro #MeuAmigoSecreto: feminismo além das redes, onde são debatidos assuntos sobre gênero e raça.</p>