Donas de si, donas do mundo: mulheres e empreendedorismo

Donas de si, donas do mundo: mulheres e empreendedorismo

Ao falar desse grande universo chamado “mulheres”, onde várias realidades se cruzam em diferentes cenários, de uma coisa eu tenho certeza: o mercado de trabalho é uma de nossas principais preocupações. E existem muitos motivos para isso.

Em conversas sobre a busca pelos direitos da mulher, é comum a seguinte argumentação:

“Ué, mas já pode trabalhar, votar e dirigir, quer mais o que?”

Inegavelmente, nas últimas décadas nós logramos conquistas importantes, e o mercado de trabalho é uma delas. Mas muita coisa ainda precisa ser discutida, incluindo a participação das mulheres no empreendedorismo e todas as dificuldades que essa trajetória pode trazer.

Antes, precisamos entender que o tal ato de empreender é amplo demais. Existem muitos caminhos que levam uma mulher a essa atividade. Pode ser que ela tenha tido esse sonho desde sempre, pode ser que ela tenha perdido o emprego abruptamente e esteja se vendo em uma situação urgente, onde precisa tomar decisões com pouco ou nenhum apoio extra, pode ser que ela seja uma mãe – e sabemos que o mercado de trabalho é especialmente cruel com mães –  e ela esteja planejando alternativas para sua carreira. Ou talvez ela seja uma imigrante refugiada começando uma vida nova após muita luta. Ela pode ser uma profissional liberal ou uma artesã, uma executiva ou alguém dando os primeiros passos na profissão. E por que cada detalhe desses importa? Porque as histórias dessas mulheres não podem ser apagadas.

Eu chamo atenção a esse detalhe sobre a pluralidade de perfis de mulheres empreendedoras para evidenciar que empreendedorismo não é moda, tampouco uma atividade fácil, que se decide da noite para o dia. Do grande “plim” após uma ideia, até o planejamento e concepção, precisamos ter em mente que ser dona do próprio negócio não é nadar em glamour ou ter vida fácil – muito pelo contrário!

Reside aí a importância de conhecermos e valorizarmos iniciativas dessas mulheres. E onde o feminismo entra aí? Bom, naturalmente eu não defendo que haja um “empreendedorismo feminista”, afinal, empreendedorismo não é uma pessoa ou entidade, mas uma atividade. Feminista é a atitude de luta por direitos, comum no trabalho dessas mulheres, que batalham em um ambiente ainda majoritariamente masculino, e cuja subsistência depende de uma batalha difícil nesse grande mar de incertezas. E as conquistas já alcançadas pelas mulheres ao longo da história não significam que já estamos bem e podemos parar de pensar e batalha. Pelo contrário: essas vitórias mostram que só a luta muda um mundo tão cheio de desigualdade, e que é possível conseguir essa mudança.

Particularmente, um mantra que carrego comigo é: seja inconformada, sempre.

A inconformidade nos tira da inércia e da fantasia de que tudo já está bem. E repensar a forma como lidamos com o trabalho na nossa sociedade é mandatório para compreendermos a importância da luta feminista.

Ser feminista é defender a ideia da emancipação política e econômica feminina, lutar por direitos civis e reprodutivos da mulher e reconhecer o trabalho das mulheres que trabalham por essa mudança. Este é um caminho possível para a diminuição de problemas derivados do machismo, como a violência doméstica e a disparidade de salários. Mas, diferente do que teorias liberais pregam, não basta apenas querer. A luta aqui é para que nós mulheres tenhamos igualdade no acesso à informação e educação, o que nos permitirá ter o pleno direito a escolhas. O que pode ser óbvio para alguns, ainda é um caminho cheio de obstáculos no dia a dia.

<p>Relações públicas com 11 anos de experiência em comunicação corporativa e comunicação digital, formada em estudos do idioma e da cultura árabe e especialização em Sociopsicologia.<br /> Co-fundadora do coletivo Não Me Kahlo, com o qual lançou o livro #MeuAmigoSecreto: feminismo além das redes, onde são debatidos assuntos sobre gênero e raça.</p>