Um dia em Kreuzkölln, Berlim

Viagens

Um dia em Kreuzkölln, Berlim

Situado no sul de Berlim, “Kreuzkölln” é a junção de dois bairros que hoje concentram boa parte da cultura alternativa da cidade: Kreuzberg, antigo bairro operário que alocou a mão de obra turca que reconstruiu a cidade no pós-guerra, e Neukölln, bairro estudantil cuja vida noturna tornou-se uma das favoritas entre os locais.

A cidade carrega consigo as cicatrizes da guerra bem como separação do muro. Em praticamente qualquer lugar em que se lance o olhar, é possível ver um testemunho do holocausto: da discrepância arquitetônica entre os poucos edifícios que sobreviveram aos bombardeios Da mesma maneira, é possível observar a existência de duas Berlins que se tornaram uma só a partir da coexistência da arquitetura comunista da Berlim Oriental com as construções ocidentais. Durante a divisão das Alemanhas, a Berlim Ocidental, ilhada atrás da cortina de ferro, era o lugar perfeito para o governo alemão da BRD (Alemanha Ocidental) enviar os ativistas políticos que representassem uma ameaça aos ideais daquela nação, um tanto conservadora. Assim, durante a divisão das Alemanhas, a Berlim ocidental era também um ninho de idéias progressistas em meio à Alemanha Oriental, o que moldou a personalidade da cidade para torná-la o que ela é hoje.

Conhecido como a “pequena Istambul”, o bairro de Kreuzberg sofreu uma grande desvalorização após a queda do muro, permitindo que uma massa estudantil ali se estabelecesse. Juntamente com os locais turcos, criaram uma imagem paradigmática da cidade: o diálogo da cultura turca com a Alemã. É uma região permeada por diversos bistrôs que oferecem variada gama de cozinha internacional, da Vietnamita à Indiana, destacando a culinária Turca e as opções veganas ofertadas. À noite é um bairro ativo, frequentado especialmente pelo público LGBTQI, o que lhe confere uma das opções noturnas mais plurais no contexto europeu.

Neukölln, por outro lado, é um bairro hoje habitado por estudantes que fugiram da elevação de aluguel nos bairros de Prenzlauer Berg, Friederichshain e, posteriormente, no próprio Kreuzberg. Onde há estudantes, há bares. Foi assim que se criou a já gentrificada Weserstraße, rua recheada de barzinhos (kneipen), cafés, sebos de livros e algumas surpresas.

Um dia ideal em Kreuzkölln começa obrigatoriamente pela Oranienstraße. Essa rua, coração de Kreuzberg, é recheada de Brechós e Antiquários. Os antiquários em Berlim não são caros, mas sim estabelecimentos para se comprar livros, roupas e obras de arte a preços acessíveis. Pegue a linha U-8 e desça na estação Kottbuser Tor. Saindo da estação, siga ao norte pela Adalbertstraße e vislumbre a pequena Istambul, onde escuta-se mais turco do que alemão. Dobre à Direita na Oranienstraße e siga até o Charlie’s Vegan Food & Coffee, peça pelo chá vietnamita. O estabelecimento oferece também uma série de opções de café da manhã que variam com os produtos frescos que recebem.

As lojas turcas são uma das grandes atrações culturais da região: é possível comprar frutas secas e sementes a preços muito acessíveis. Um dos meus pontos favoritos do bairro é a Orient Musikhaus, umas das mais populares lojas de instrumentos musicais turcos em Berlin. Vale a pena entrar para ver os instrumentos e, caso você tenha sorte, é possível presenciar uma palhinha de música turca de artistas que ali vão tomar chá.

Caminhando pela região o contraste cultural se manifesta. Há muita arte de rua; a paisagem do bairro propicia o contato com diversas intervenções, grafites e pôsteres interessantes. Além disso, existem diversos restaurantes pelos arredores, entre eles se recomenda o Miss Saigon, de comida vietnamita e, talvez o mais tradicional do bairro, o restaurante Hasir, onde pela primeira vez um trabalhador turco resolveu colocar o Kebab dentro de um pão prensável para que os trabalhadores o pudessem levar como almoço para as obras. Foi assim que o sr. Hasir inventou um dos pratos mais tradicionais da cidade: o Dönner. As opções com falafel ou berinjela são extremamente saborosas.

Após o almoço é hora de dar um relax. Siga na direção sul pela Kottbuser Damm até chegar ao Tempelhof, o maior parque da cidade. Dê uma deitada na grama e fique olhando para as antigas pistas de pouso daquele que foi o maior Aeroporto da Europa antes da segunda guerra. As construções do antigo aeroporto ali restam até hoje entre jovens andando de bicicleta e praticantes de paraglider. Para se revigorar após o soninho vá ao Café Engels na Lichtenraderstraße. O ambiente é extremamente acolhedor e os funcionários são muito simpáticos. Do Café caminhe pela Hermannstraße até a Hermannplatz, encontrando ali a feirinha de rua que oferece desde comida até moda e souvenirs. Além da feira, ao redor da praça (Platz = Praça) encontram-se alguns centros de cultura alternativa na cidade, principalmente alguns pequenos cinemas, como o Movimiento, no qual é possível assistir filmes experimentais contemporâneos com legendas em inglês.

Prepare-se para a noite. Quando a tarde começar a cair vá para a Weserstraße: uma das ruas com vida noturna mais agitada da cidade. Para jantar antes da noitada, vá ao Sahara Imbiss, restaurante sudanês, que oferece o melhor molho de amendoim que existe no Universo! Peça o falafel vegano e peça um extra do molho.

Uma vez alimentado: noite! Para fazer um pubcrawl se recomenda os seguintes bares: primeiramente vá ao ORi,  um bar/galeria de arte, localizado na esquina da Weserstraße com a Friedelstraße. Dali siga pela própria Friedelstraße até à Lenaustraße, onde se localiza o Lenau-Stuben, bar que oferece um ótimo White russian. Se preferir a boa e velha cerveja, ou até mesmo o bom vinho alemão (sim, existe!), dobre à esquerda na Hobbrechtstraße e se dirija ao Fuk;s Bar. A trilha sonora varia da Chanson francesa até o aquece para as festas de música eletrônica. Seguindo o ritmo do aquece vá até o Ä, um dos bares mais famosos da Weserstraße. Os atendentes são extremamente simpáticos assim como os frequentadores. É muito fácil puxar assunto por ali e descobrir que há de festas boas para a noite.

O circuito mais alternativo do bairro fica ao sul. Na esquina da Hermannstraße com a Nogatstraße há o Kuss-kuss, um bar cujos donos são músicos e deixam diversos instrumentos para que os clientes sintam-se à vontade para musicar o ambiente. Mas cuidado, os músicos ali são ótimos! Da Weserstraße há duas alternativas de programa para a sua noite encerrar na manhã seguinte: a primeira é procurar um club no próprio bairro, entre os quais há os excelentes Kulstätte Keller, localizado em um porão na Karl-Marx-Straße, e o Griessmühle, com música eletro e uma boa área ao ar livre. A Segunda opção, para os que gostam de música ao vivo, principalmente Folk, é o Madame Claude, que recebe em seu palco os jovens talentos da música alemã e européia.

Outra opção muito interessante do bairro é ir até o Arkaden Neukölln, o Shopping local, mas não pelo shopping em si. No último andar do estacionamento, localiza-se o Klunkerkranich, que fica ao ar livre, oferecendo boa música, cerveja e talvez a melhor vista da cidade.

Nos domingos pela manhã ainda é possível visitar os insuperáveis Flohmarkts de Berlim. Um autêntico mercado de pulgas onde se consegue quase tudo pechinchando (Eu consegui uma jaqueta Jeans por 3 Euros!). O flohmarkt mais legal de Kreuzkölln é o Flowmarket Kreuzboerg, que oferece ainda almoço vegano por 7 Euros, com direito a cerveja feita pelos próprios!

Não é mais possível traçar uma clara diferença entre as ofertas desses dois bairros, sintetizando, por isso, a maior herança que Berlim nos legou: a importância de não se ter muros.

Henrique Bordini

Henrique Bordini

Henrique Bordini é nascido em Porto Alegre e tem tendência crônica ao consumo abusivo de paçoquinha. É baixista da banda Baby Budas, que jura ser tão interessante quanto o nome. Apaixonado por música, literatura, história da arte e outros lugares-comuns de bios, tenta sempre identificar o diálogo do passado histórico com o presente concreto nas cidades que visita.