Tem uma Charlottesville no Brasil todos os dias. Você é que não vê.

Feminismo

Tem uma Charlottesville no Brasil todos os dias. Você é que não vê.

Com o título “Racismo no Brasil é real, mas não se manifesta como ódio racial”, o autor Joel Pinheiro da Fonseca abre seu artigo semanal no site do jornal Folha de São Paulo para falar do ocorrido em Charlottesville, quando manifestantes pró-supremacia branca reviveram um antigo pesadelo norte-americana.

Sob a alegação de que existe racismo no nosso país, mas de uma forma não tão explícita:

“O combate ao racismo, que no longo prazo tem sido vitorioso, não ocorre nos tribunais e nem com prisões. Permite-se que as opiniões –mesmo as que consideramos mais detestáveis– sejam expressas publicamente. Isso obriga que mesmo as opiniões corretas tenham que se munir de argumentos para se sustentar. E essa necessidade está dando um choque bem-vindo ao mainstream, que agora se dá conta de que a intimidação é incapaz de vencer uma proposta equivocada ou mesmo odiosa. Por aqui, a liberdade de expressão é mais precária. O primeiro impulso de muita gente diante de opiniões que julgam ofensivas é proibir, multar ou prender. A cultura é mais de processos do que de argumentos. Ficamos complacentes na certeza de que o Estado está aí para impedir ideias más de se alastrarem. A opinião criminalizada se transforma em mártir e enfraquece nossas melhores defesas.”

Será que é verdade que o racismo brasileiro não é tão agressivo e que nós somos um país que cala a boca de opiniões distintas apenas por diversão?

Vamos analisar os seguintes dados:

Os números de morte no Brasil são pareáveis com países em guerra. O Mapa da Violência, documento que analisa o número de mortes por arma de fogo no Brasil. Em 2014 foram mais de 44 mil vítimas, o dobro do ocorrido no ano de 1993. Ou seja, em 20 anos a incidência de óbitos por arma de foto aumentou 100%. De acordo com a análise da jornalista Paula Nunes:

 

A maioria das vítimas de homicídios por arma de fogo continua sendo formada por homens jovens e negros. Parece clichê, mas a pesquisa demonstrou que a premissa é verdadeira. Nacionalmente, 94,4% das vítimas, em 2014, foram homens. Esse número, se analisado especificamente, variou entre 91% e 96% em cada estado. Ainda, o crescimento do número de mortes na juventude, faixa etária de 15 a 29 anos, foi bem mais violento do que no restante da população. Enquanto no conjunto da sociedade, o crescimento de homicídios por arma de fogo cresceu 592,8% no período compreendido entre 1980 e 2014, dentre os jovens o número subiu para 699,5%.”

Para coletivos e estudiosos negros, já virou parte da rotina falar de genocídio negro. Para pessoas brancas, isso muitas vezes é novidade. Não é verdade que o racismo no Brasil é menos agressivo. O fato de não haver manifestações de pessoas nas ruas com cartazes vexatórios de “Vidas Brancas Importam”, na verdade é um sintoma da perfeição do crime de racismo em nosso país. A farsa da democracia racial e a falsa apreciação à cultura negra – renegada, muitas vezes, a estereótipos de mídia -, fazem parecer que há paz onde não há. Ora, um câncer ou uma depressão não menos perigosos apenas porque não podemos enxergá-los com nossos olhos.

Assim como algumas moléstias do corpo e da mente precisam de aparelhos e técnicas específicas para serem detectados, o racismo é um mal social que precisa de estudo para ser compreendido. A historiadora Suzane Jardim comentou em seu blog sobre a raiz do racismo no Brasil, e como muitas vezes o atribuímos, erroneamente, apenas à escravidão – possivelmente um dos maiores e mais mal resolvidos crimes ocorridos em nosso território -, quando existem outros fatores ligados ao pós-abolição que mantiveram as estruturas racistas cada vez mais fortes:

“A dinâmica racial brasileira e a marginalização do negro em nossa sociedade é fruto de uma abolição sem conclusão, uma abolição de mentirinha que só serviu para colocar o negro em uma posição à parte da sociedade.
Quando a escravidão foi abolida, a grande maioria da população negra do país já era liberta ou havia nascido livre. Estavam todos buscando um modo de serem inseridos na nova sociedade sem escravidão, aquela nova e moderna sociedade aos moldes europeus que o fim da dominação portuguesa e o espírito republicano anunciava. Mas na prática o que aconteceu foi:

  • aplicação de leis de incentivo à imigração com cotas (sim! olha elas aí!) para imigrantes europeus colarem pra ocupar os postos de trabalho
  • politicas de embranquecimento
  • disseminação das teorias cientificas racistas no meio popular e acadêmico (aqui sim, a gente pode tranquilamente falar de racismo sem dó alguma), aquelas onde o negro era inferior ao branco, sua inteligencia era menor, pessoas de traços negros tinham mais propensão ao crime ou que o sangue negro “””estragava””” a raça branca e seria a decadência da sociedade brasileira nessa nova era republicana que surgia
  • criminalização de práticas culturais e da socialização entre negros diversas das praticadas anteriormente*

sobre esse último ponto, dou como exemplos o “Projeto de Repressão da Ociosidade”, o precursor da “Lei da Vadiagem” que foi promulgado em 1888, mesmo ano da abolição (ó a “coincidência”) e que visava reprimir principalmente a ociosidade dos negros libertos (SIM, aqueles mesmos que estavam sem emprego porque as vagas eram ocupadas por imigrantes, sabem?) porque acreditavam que a vagabundagem era a maior causa da criminalidade (o trabalho enobrece o homem e mimimi), então eles encarceravam negros que andavam pela rua porque… porque sim, eles podiam, só por isso… Ou então posso apontar o fato de que de 1889 a 1937, a capoeira era crime previsto pelo Código Penal. Qualquer rodinha de capoeira de leve dava seis meses de cadeia. E exemplos como esse existem tantos…”

É confortável achar que o Brasil é um país menos agressivo aos negros apenas por não haver um manifestante da KKK na rua, ou por termos leis que, em tese, coíbem atos preconceituosos. A prática mostra, à despeito da teimosia de colunistas liberais, que a vida de negros brasileiros tá longe de ser a calmaria que se pinta em comerciais brasileiros no exterior.

 

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Legenda: Escrita racista é encontrada em banheiro do Mackenzie em SP (Foto: Reprodução de Redes Sociais)

 

Uma excelente maneira de conhecer a realidade do negro e do pobre no Brasil, e entender que esse cenário é tão cruel e pernicioso quando a terrível cena de Charlottesville, é conhecer o trabalho do rapper Eduardo Taddeo, ex-vocalista do Facção Central. Em seu álbum “A Fantástica Fábrica de Cadáveres”, um dos discos mais bem escritos da contemporaneidade, na humilde opinião desta que vos fala, ele traduz em melodia e letras totalmente viscerais o que acontece nos locais onde os olhos da população branca dificilmente chegam. Quer um exemplo?

“A Síria se assustaria com 8 carros funerários, saindo do mesmo bairro, no mesmo horário. Em uma semana os protetores dos lords brancos, matam mais que a ditadura em 20 anos. No Hits estamos no challenger magnífico, na real enchemos macas, baús frigoríficos. Com sorte quando a 12 do paiol da PM engasga, formamos a fila do SUS por enxerto e plástica. Minha rima se junta ao clamor de justiça na cartolina, pra ser outro ato de repúdio contra a Era Das Chacinas. O pedido do secretário de segurança é especifico, soldados atenção sem testemunha e feridos. Abatam pelo cabelo, pela roupa, pela cor, só cuidado com a laje com cinegrafista amador. Dá um vazio vê que ainda não fiz o escrito, com poder de evitar os enterros coletivos. Impedir que os antigos vizinhos de rua, depois dos BUM se tornem vizinhos de sepultura.”

O choque que tivemos essa semana pode ser visto como um sintoma de uma sociedade que enxerga os males sociais como espetáculo: acontece aqui, não vejo. Acontece lá, me escandalizo. Mas, mesmo assim, por alguns minutos. Charlottesville foi pauta de oportunidade para muitos jornalistas que citaram o fato como abominável, ignorando as já cotidianas chacinas em favelas e periferias brasileiras. Isto talvez mostre que precisamos aprender mais sobre nosso país do que imagina nossa vã arrogância de (falsa) democracia racial.

 


Gabriela Moura

Gabriela Moura

Relações públicas com 11 anos de experiência em comunicação corporativa e comunicação digital, formada em estudos do idioma e da cultura árabe e especialização em Sociopsicologia. Co-fundadora do coletivo Não Me Kahlo, com o qual lançou o livro #MeuAmigoSecreto: feminismo além das redes, onde são debatidos assuntos sobre gênero e raça.