Permita seu corpo primaverar

Feminismo

Permita seu corpo primaverar

Empoderada. EM-PO-DE-RA-DA. Leia essa palavra novamente, pausadamente.

Um termo gasto e absorvido pela mídia, que nos dá a falsa impressão de liberdade. Somos empoderadas mesmo? Temos poder sobre nós mesmas?

A primavera vem aí, falta pouquinho pra estação mais florida do ano, e por não falar no nosso processo de florescimento, também?

A esta altura todos nós já sabemos o básico: pessoas adultas têm pelos. Então por que, em pleno 2017, uma foto que mostre uma mulher com pelos pode causar um reboliço tão grande, e até mesmo demonstrações de violência?

Nojento, anti-higiênico, desleixo…quantos adjetivos nos dão, não é mesmo? Você se depila hoje e daqui quinze dias já está aflita, porque os pelos estão longos o suficiente para serem vistos, mas ainda muito curtos para serem novamente arrancados. E dá-lhe calça jeans e manga que esconda as axilas, mesmo debaixo de um sol de quarenta graus. Tudo isso porque as pessoas ao redor não podem nem imaginar que temos os tão naturais pelos.

“Uma mulher adulta com pelos, poros, cravinhos? CREDO!”

E dá-lhe gilete, cera, sabonete íntimo, desodorante íntimo, qualquer coisa para detonar a flora vaginal para agradar o outro. A gente pode até tentar se enganar dizendo que faz só pra se sentir bem, mas no fundo sabemos que tem mais coisa por trás de uma rotina quase obsessiva em busca da pele perfeitamente lisa, da vagina com cheiro de fruta e da axila perfeita como seda.

E mudar tudo isso não é fácil. É um exercício diário que já fazemos diante do espelho, mas a contrapartida precisa existir. Ou seja, as pessoas ao redor precisam entender que pouco importa a opinião pessoal delas, o respeito é uma obrigação. Agredir verbalmente alguém que escolheu não seguir as convenções sociais faz com que a denominação  “animal racional” pareça incondizente com nossa espécie. Enquanto parte de nós busca olhar pra si mesma com olhos desnudos de pré-definições, toda a sociedade se esforça para que sigamos escravas de padrões.

Em tempo: percebam que em momento algum eu condeno o ato de depilação em si, mas a forma como esse hábito é imposto, e deixa de ser mera escolha para se tornar obrigação.

Não há nada de nojento em pelos. Afinal, homens estão ai ostentando sua natureza sem maiores problemas. Sabemos que a questão não é falta de higiene e que os pelos femininos só soam nojentos porque fomos ensinados assim. Tudo aquilo que não se assemelhar a uma capa de revista será condenado: gordura, fluidos vaginais, menstruação e… pelos. Eles, que formam parte de um importante mecanismo de defesa e proteção à nossa pele e órgão genitais.

editorial feminino

Cuidados com higiene pessoal são diferentes de sacrifícios para buscar adequação social e aceitação. O primeiro caso, todos os seres humanos, independente de seu gênero, precisam fazer. É mandatório manter bons hábitos para a manutenção da boa saúde (Sra. Óbvia ataca novamente). Mas o extremo da vaidade, aquele que prende e mutila mulheres para que continuemos submissas a um sistema, não tem a ver com limpeza corporal, mas com poder e controle.

O florescimento de nossos corpos, o auto-amor, o auto-cuidado e o entendimento do funcionamento do nosso organismo são essenciais para que nos mantenhamos fortes.

E para aqueles que acham errado a ideia de ter pelos, ok, tire os seus, estamos bem assim.

Repito que não existe um problema em escolher o que fazer com seu corpo. Desde que seja, de fato, uma escolha.

Gabriela Moura

Gabriela Moura

Relações públicas com 11 anos de experiência em comunicação corporativa e comunicação digital, formada em estudos do idioma e da cultura árabe e especialização em Sociopsicologia. Co-fundadora do coletivo Não Me Kahlo, com o qual lançou o livro #MeuAmigoSecreto: feminismo além das redes, onde são debatidos assuntos sobre gênero e raça.

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