Maternidade(s) – pluralismos e diálogos sobre os papéis destinados às mulheres

Feminismo

Maternidade(s) – pluralismos e diálogos sobre os papéis destinados às mulheres

Toda menina cisgênero já ouviu que ser mãe é uma vocação, que gerar um filho te torna “mais mulher” e que a vida não está completa até se dar à luz uma criança. Quando ganhamos bonecas de presente, a intenção é que os cuidados com o brinquedo simulem os cuidados com um bebê, e seja assim um treinamento para a vida adulta e o inevitável destino da maternidade.

Mais tarde, já adultas, somos apresentadas ao termo “relógio biológico”, que seria um tipo de dispositivo invisível do corpo das mulheres cisgênero que avisa quando está chegando o momento de ter um filho antes que seja “tarde demais”. O que acontece é que, em meio a tanta regra imposta socialmente, pouco se fala sobre a maternidade compulsória. Ou seja, a obrigatoriedade em abraçar a maternidade.

Ao impor a todas as mulheres cisgênero um suposto instinto materno, o mundo real é deixado de lado. E por “mundo real”, podemos compreender alguns cenários, tais como a transgeneridade, a maternidade solo, as mães lésbicas e as mães negras.

Repararam que no início do texto eu especifiquei o tempo todo que falava de mulheres cisgênero?

Uma pessoa cisgênero é aquela que se identifica com o gênero que lhe foi designado ao nascer. Uma pessoa trans não se identifica com o gênero que lhe foi designado.

E assim, a transgeneridade é deixada de lado nos debates sobre maternidade, ignorando que as mulheres trans que são mães possuem especificidades que precisam de atenção. A falta de representatividade dessas mulheres em todos os âmbitos da sociedade acaba por torna-las invisíveis.

Outra questão é a maternidade solo. Ou seja, as mães que criam seus filhos sozinhas. Em 2015, o Instituto Data Popular apurou que existem mais de 29 milhões de mães solteiras no Brasil. E, de acordo com o Conselho Nacional de Justiça, em estudo realizado no ano de 2013, mais de 5 milhões de crianças não têm o nome do pai em seu registro.

As mães que carregam sozinhas a responsabilidade da criação de um filho acabam sendo isoladas pela sociedade. A maternidade se torna um local solitário. Ainda que a guarda seja compartilhada e o pai passe algum tempo com a criança, ainda é a mãe a pessoa mais responsabilizada pela tarefa.

E a maneira como a sociedade trata e exige das mães é um problema de todos nós.

Neste aspecto, é importante evidenciar como o constante isolamento e a sensação de culpa podem colocar em risco o bem-estar emocional da mãe.

Percebemos, então, um paradoxo: as meninas cisgênero são criadas desde cedo para desempenharem o papel materno. Na idade adulta, a mulher que priorizar sua carreira profissional antes de um casamento e de um planejamento familiar, é vista como negligente à sua própria natureza. No entanto, no momento em que ocorre a gravidez, especialmente se não há apoio do companheiro, esta mulher é deixada às margens, e ela precisa aprender, da noite para o dia, como conciliar todas as tarefas de uma jornada múltipla: cuidados com a criança, com a casa, trabalho e atenção aos demais membros da família. Tudo isso sem poder contar com uma rede de apoio.

Mesmo em um relacionamento, uma mulher se vê sozinha em tarefas que são vistas como “obrigação da mulher”. São delimitações às quais chamamos “papéis de gênero”, ou seja, definições pré-estabelecidas sobre o que homens e mulheres devem fazer e como devem agir de acordo com seu gênero.

Já repararam naquele discurso sobre pais que ajudam na criação dos filhos?

– Fulano é ótimo, ajuda em tudo em casa.

– Fulano é um paizão, vai buscar o Joãozinho na escola todos os dias.

– Fulano é um ótimo pai, faz papinha e põe pra dormir.

Breaking News: Fulano não faz mais que a obrigação. Afinal, um filho não é feito somente pela mãe, certo?

A ideia de que um homem estaria oferecendo uma “ajuda” acaba fazendo com que estas ações soem extraordinárias. Quando, na verdade, é uma questão de responsabilidade compartilhada.

Já as mães lésbicas enfrentam, todos os dias, a árdua tarefa de lidar com a lesbofobia nada velada em perguntas como “quem é o homem da relação?” e afirmações como “essa criança vai crescer confusa se não tiver um pai”, ou até mesmo agressões mais pesadas sobre relacionamentos homoafetivos. Mais uma vez, a apelação para o que seria “natural” ou não, segundo convenções sociais, é usada para o controle do corpo e da vida da mulher.

E no caso das mães negras, que lidam com o racismo, o medo que seus filhos sofram violência policial e a hipersexualização de seus corpos, o problema alcança novos temas. Segundo o estudo Desigualdades sociais e satisfação das mulheres com o atendimento ao parto no Brasil: estudo nacional de base hospitalar, mais de 65% das mulheres que sofrem violência obstétrica no Brasil são negra. O preconceito racial influencia diretamente a maneira como essas mulheres são tratadas na hora do parto.

É claro que estes são apenas alguns aspectos dentro do tema “maternidade”. O que demonstra, justamente, que mulher não é uma persona única. Logo, nem todas as mulheres seguirão o mesmo caminho em suas vidas. E a maternidade é um local que muitas vezes envolve complexidades que são jogadas para debaixo do tapete em nome de uma romantização e uma mitificação do que é ser mãe.

E a esta altura, talvez vocês estejam pensando: “Pô, mas a Gabriela tá tirando todo o brilho do dia das mães”.

Pensemos por este lado: além dos presentes fofos que todos gostamos de dar para nossas mães como demonstração de carinho, nós podemos oferecer, durante o ano todo, compreensão, empatia e apoio.


Gabriela Moura

Gabriela Moura

Relações públicas com 11 anos de experiência em comunicação corporativa e comunicação digital, formada em estudos do idioma e da cultura árabe e especialização em Sociopsicologia. Co-fundadora do coletivo Não Me Kahlo, com o qual lançou o livro #MeuAmigoSecreto: feminismo além das redes, onde são debatidos assuntos sobre gênero e raça.