Consequências da crise econômica na força de trabalho feminina

Feminismo

Consequências da crise econômica na força de trabalho feminina

Pense nas capas de revistas femininas estampando as sempre notáveis manchetes sobre sexualidade, moda, beleza e trabalho. Um título em letras garrafais explicitando como nós somos donas de nós mesmas hoje. A mulher contemporânea, de acordo com boa parte dessas publicações, usa roupas de cortes masculinos para fugir de estereótipos de fragilidade, porém, sem perder a feminilidade, com seu rosto gracioso mantido a toneladas de procedimentos estéticos e o salto que mantém a postura ereta. Elegância e glamour como apenas detalhes da personalidade de uma forte trabalhadora.

A persona “mulher executiva” é a figura utilizada para afirmar que vivemos novos tempos, onde ambientes majoritariamente masculinos abrem-se, ainda que aos poucos, a uma maior diversidade de gênero.  De fato, o número de mulheres CEOs aumentou nos últimos anos, embora representem apenas 23% deste índice no Brasil, segundo reportagem de 2013 do site Valor. Contudo, como abordado pela revista Exame os desafios impostos por uma hierarquia de gênero ainda são uma barreira de difícil transposição. A matéria relembra, por exemplo, a fala do presidente mundial da Microsoft, Sadya Nadella, sobre aumento salarial para mulheres. “Trata-se de ter fé que o sistema lhe dará isso quando chegar a hora”, disse. Deixando claro, assim, que não havia, naquele momento, uma preocupação com políticas de isonomia e equidade para a situação socioeconômica de executivos homens e executivas mulheres.

A fala de Nadella gerou uma reação negativa imediata, o que o fez, na mesma tarde, se desculpar com todos os funcionários, e reunir-se com acionistas e diretores para iniciar discussões sobre o aumento da diversidade na empresa.

Este e outros exemplos comumente debatidos entre profissionais considerados de alto escalão nos mostram que, embora possamos ver um aumento na participação de mulheres em cargos de decisão, apenas pequenas intervenções não bastam para que possamos, com segurança, afirmar que há igualdade entre estes trabalhadores. Além disso, falar de mulheres no mercado de trabalho vai muito além de observar a modelo com terninho na capa da revista anunciando uma nova era para as executivas.

 

Nem só de tailleur é feito o mercado de trabalho feminino

Campesinas, empregadas domésticas, artesãs, trabalhadoras autônomas, operárias, dentre outras categorias profissionais, não figuram nas capas das grandes publicações impressas sobre trabalho e sucesso por quê? Esta pergunta pode ficar sem resposta enquanto estas categorias trabalhistas forem invisibilizadas nos debates de gênero no mercado de trabalho.

Trabalhadora rural na Bahia. Créditos: Jequié Repórter
Trabalhadora rural na Bahia. Créditos: Jequié Repórter

As múltiplas jornadas de trabalho, incluindo cuidados com filhos, com a casa, estudos (quando dá), mobilidade urbana, entre outros pormenores, marginalizam esta população, que prioriza a sobrevivência, fato agravado pela atual recessão econômica. É o lado não glamouroso, algo que não vai vender exemplares de revista e discursos meritocráticos de superação.

O trabalho também é um tabu social. Temos hoje um modelo de trajetória ideal, que começa a ser polida desde o início da carreira escolar. Entre todos os pilares sociais, o trabalho é aquele mais intrínseco à vida do indivíduo. Você pode não ter uma família, você pode até não ter “estudos”. Mas, se você não tiver um trabalho dentro de determinados modelos, isto o torna uma párea social. E o desemprego hoje atinge mais de 18% das mulheres. Estaríamos, de fato, emancipadas em um cenário onde a flexibilização do trabalho ganha força ancorada nas aflições geradas por uma crise tão profunda?

Há, ainda, as barreiras invisíveis. Ou, em português claro, os preconceitos que tornam um perfil menos “elegível” a um cargo durante um processo seletivo. O historiador e doutor em economia Vitor Schincariol, disse à reportagem do R7: “Esse é um traço histórico. Mulher, jovem e negra é o perfil mais complicado do trabalhador na ativa, seja porque o jovem não tem experiência, seja porque, de uma forma geral, existe um perfil de preconceito contra a mulher, principalmente a negra”.

A afirmação de Vitor é facilmente corroborada quando observamos os ambientes de trabalho. Das poucas mulheres em cargos de liderança, quantas são negras? A revista Você S/A traz, este mês, uma reportagem de capa com a única CEO negra do país. Cabe o questionamento, trazido em letras garrafais na publicação: por que ela ainda é exceção?

Anúncio da edição de abril da revista Você S/A com reportagem sobe a única CEO negra do Brasil.
Anúncio da edição de abril da revista Você S/A com reportagem sobe a única CEO negra do Brasil.

Apelar para uma possível incapacidade intelectual/acadêmica é infundado. Além do racismo científico já ter ido por terra, levando consigo possíveis teorias sobre a superioridade mental de indivíduos brancos, as atuais políticas afirmativas de inclusão, que ainda precisam ser ampliadas, possibilitaram a inserção de mais negros nas universidades. Oferecendo, assim, profissionais negros tão capacitados quanto brancos.

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Cena do documentário Doméstica, de Gabriel Mascaro

Além da mulher negra, a mulher com filhos, a mulher pobre e a mulher com deficiência também são exemplos de perfis que sofrem com o preconceito.

E são todas essas reflexões, duras, amargas, e cuja solução depende mais do que cinco minutos, que precisam ser feitas quando falamos de mulheres no mercado de trabalho. É preciso relembrar sempre que “mulher” não é um grupo homogêneo. É uma parcela da população. Plural, convivendo em condições desiguais de acesso à educação, saúde e demais direitos fundamentais. Logo, não teremos uma história única para ilustrar a posição das mulheres na economia hoje.

Condições postas, é a partir daí que poderemos definir ações múltiplas para cenários múltiplos. Pois uma política única e unilateral horizontal – ou seja, definida de cima para baixo sem a participação popular – não é capaz de abranger todo o contingente de mulheres.

A crise econômica pode ter efeitos ainda mais nefastos, como impactos na saúde física e mental e a impossibilidade de dar seguimento na própria carreira por conta da falta de dinheiro.

Cada um de nós pode ajudar neste processo estudando qual é o perfil de trabalhador nas nossas profissões, buscando diálogos com conselhos e associações profissionais, e ajudando na criação e ampliação de comitês e grupos de trabalho com foco em gênero e raça nestes órgãos, nas empresas, instituições de ensino, cooperativas e associações comunitárias.

A mudança não acontece da noite para o dia e o trabalho árduo pode render algumas frustrações pelo caminho. O principal alimento para nossa coragem de enfrentar tudo isto é a empatia.


Gabriela Moura

Gabriela Moura

Relações públicas com 11 anos de experiência em comunicação corporativa e comunicação digital, formada em estudos do idioma e da cultura árabe e especialização em Sociopsicologia. Co-fundadora do coletivo Não Me Kahlo, com o qual lançou o livro #MeuAmigoSecreto: feminismo além das redes, onde são debatidos assuntos sobre gênero e raça.