Consciência negra: por quê? Pra quê? É de comer?

Feminismo

Consciência negra: por quê? Pra quê? É de comer?

Em algum momento da sua vida de usuário de redes sociais você deve ter se deparado com aquele cartaz de dizeres capciosos: “não precisamos de um dia de consciência negra, mas de 365 dias de consciência humana”. Sob um ponto de vista simplista talvez você tenha pensado que aquilo fazia sentido, certo? Ora, uma vez que todas as raças se unissem em prol do bem geral, não seria necessário colorizar a tal consciência.

Ledo engano. Mas antes de soltar um “EITA!” ou o famoso “é só minha opinião”, por que não perder uns minutos do seu dia fazendo pequenas inserções na cultura negra e entender o que é essa tal consciência?

Essa imagem idílica de humanidade unida e homogênea parece ter o único propósito de apagar a história real do Brasil. Basta analisarmos os discursos:

“Consciência negra? Não precisa”.
“Cotas raciais? Não precisa”.
“Não sou racista, os funcionários da minha empresa são negros e até indígenas” – essa é a minha preferida.

Por que questiona-se políticas públicas de inclusão social, mas não se dá o mesmo foco de indignação às causas dos problemas que tornaram necessárias tais ações?

Por que falar de Consciência Negra? Muitos por quês que precisam de um certo tempo para digerir respostas. Spoiler: requer estudo, paciência e boa vontade.

Projeto fotográfico da estudante de Antropologia, Lorena Monique, na Universidade de Brasília (UnB), mostra alunos segurando placas com frases racistas que escutaram dentro do campus.
Projeto fotográfico da estudante de Antropologia, Lorena Monique, na Universidade de Brasília (UnB), mostra alunos segurando placas com frases racistas que escutaram dentro do campus.

O mito da democracia racial foi derrubado há tempos. Mas, antes de erguermos a bandeira da “diversidade” só pra fazer bonito pro nosso próprio ego, vamos tentar compreender o que isso representa de verdade. O Brasil viveu séculos de escravidão – mais precisamente, 358 anos -, um período marcado por violências que deixaram suas marcas até hoje. Você consegue contar quantas gerações existiram neste período? O pós-abolição não veio acompanhado ações sociais para a inserção dos então recém-libertos na sociedade. A realidade foi: políticas de embranquecimento da população, sob alegações que taxavam os negros de seres primitivos, menos inteligentes e mais propensos a doenças e pouca ou quase nenhuma preocupação em revisar a sociedade que, até então, vivia com tranquilidade um sistema onde servidão forçada era algo natural, aceitável ou mesmo incentivada, fomentada pelo status que a posse de escravos oferecia aos seus senhores. E isso falando apenas do básico do cenário catastrófico ao quais os negros foram submetidos.

Ou seja, uma vez “livres” (assim, com muitas aspas), os escravos tinham todo um mundo a ser desbravado ao lado de suas famílias, finalmente gozando de todos os direitos sociais que, por três séculos, foram negados. Tudo ficaria bem a partir de agora, né?

Não, exatamente. As questões sociais enfrentadas, principalmente pelos mais pobres, estão todas interligadas. Desde um sistema educacional defasado, até as já sabidas deficiências do sistema penal, passando por um mercado de trabalho pouco inclusivo e o funil propositalmente imposto no acesso ao ensino superior. Não é possível querer melhorar um sem olhar para o outro. É por isso que tantas áreas de conhecimento são envolvidas na racionalização de meios para diminuir o abismo entre negros e brancos no Brasil.

Você já fez o teste de verificar quantos negros existem em seu círculo social, faculdade ou trabalho? Então, proponha-se a si mesmo esse exercício diário. Os negros representam 53% da população brasileira, mas são a minoria em espaços considerados “bons” e maioria em espaços considerados marginalizados. Dica: resista a tentação de resumir tudo a meritocracia. Vá além.

O Dia da Consciência Negra vem para trazer à luz estas questões com uma proposta: larguemos o conceito de culpa e abracemos o conceito de responsabilidade. Não é ético, tampouco responsável, que se abra mão de repensar as estratégias de enfrentamento ao racismo estrutural e a violência contra a população.

Ilustração do rosto de Cláudia Ferreira da Silva, mulher negra morta após ser arrastada por uma viatura policial no Rio de Janeiro. Ilustração de Aline Valek.
Ilustração do rosto de Cláudia Ferreira da Silva, mulher negra morta após ser arrastada por uma viatura policial no Rio de Janeiro. Ilustração de Aline Valek.

“Aaaaah mas isso é segregação”

Essa é outra falácia comum na oposição dos debates raciais. Mas vamos refletir a matemática básica: se ao branco não é negado o direito da existência, se o branco não tem sua humanidade questionada, se ser branco é considerado o “normal e padrão” social, e, de acordo com a nossa realidade, foi criada uma hierarquia social ao longo da história, o que há de segregacionista na luta pelos direitos de quem está na base dessa pirâmide?

Questionar uma sociedade racista nunca significou prejudicar pessoas não-negras. O racismo é uma arma tão mortal e aceita, a ponto de os privilégios concedidos por séculos aos brancos serem vistos como direitos inquestionáveis, e a políticas que visam estender esses direitos aos negros são vistos como privilégios – alô, onde está o privilégio em ser o povo que mais morre violentamente ou o que menos ganha dinheiro?

Se você gostaria de entender como colaborar com a causa negra, uma dica é entender as dinâmicas raciais brasileiras e buscar coletivos e grupos de pessoas que se esforçam em diversas áreas para a nossa sociedade ser mais igualitária. Não sabe por onde começar? Aqui vão algumas dicas:

 

  • A negação do Brasil – o negro nas telenovelas

 

  • História da resistência negra no Brasil

      

  • Negros dizeres

   

  • Dandaras: a força da mulher quilombola

 

  • Raça humana – os bastidores das cotas

   

Ter uma “consciência negra” faz parte da construção da famosa “consciência humana”, que eu citei no início destes escritos. A negação dos debates raciais são uma ferramenta potente de manutenção do status quo,  e quanto mais desapegado formos a velos paradigmas, mais próximos estaremos de novas soluções.

Gabriela Moura

Gabriela Moura

Relações públicas com 11 anos de experiência em comunicação corporativa e comunicação digital, formada em estudos do idioma e da cultura árabe e especialização em Sociopsicologia. Co-fundadora do coletivo Não Me Kahlo, com o qual lançou o livro #MeuAmigoSecreto: feminismo além das redes, onde são debatidos assuntos sobre gênero e raça.

3 comments

  1. Acredito que todo o movimento à favor de cotas é válido, que acima de tudo, somos todos iguais sim, e que cada dia mais esse assunto deve estar em pauta, para que os nossos futuros jovens, nos auxiliem para melhoria das nossas políticas públicas, e que o nosso país assim seja um país de melhores oportunidades à todos nós. Aplausos a todos que lutam pela raça humana.

    1. ou vc não leu ou não entendeu nada. seja qual for o caso, é deprimente

  2. Salve! Salve nossa história e nossos ancestrais africanos/as!

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