365 dias para não normalizar a violência de gênero

Feminismo

365 dias para não normalizar a violência de gênero

Propus para a equipe Insecta que meu texto deste mês falasse de relacionamento abusivo. Propositalmente no mês de junho, da data mais romântica do ano, eu escolhi falar sobre um tema que ainda é negligenciado e tratado de maneira equivocada como “ciúmes” ou “inconformismo pelo fim de um relacionamento”. A data é fofa, mas o papo aqui vai ser sério.

Talvez você já deva ter lido esse termo “relacionamento abusivo” por aí. Talvez você já tenha passado por isso ou presenciado alguém nesta situação. Em que momento a gente aprendeu que é normal o amor doer ou que ciúmes são prova de amor? Esse assunto não é dos mais legais, mas é necessário e urgente.

A violência contra a mulher pode ter diferentes facetas. Nós temos mais facilidade de enxergar algumas do que outras. Por exemplo, quando lemos uma notícia de um ataque sexual, obviamente damos a isso o nome de VIOLÊNCIA. Mas o que acontece muitas vezes é que há uma tolerância social maior a determinados tipos de violência e a certos perfis de vítimas. Também é mais fácil detectar a violência quando a vítima é outra, e não nós mesmas. A negação é fruto de vergonha e, às vezes, de uma indignação que nos toma de assalto e nos faz perguntar: como eu cheguei até aqui e como eu faço pra sair?

Primeiro, vamos compreender quais são as formas de agressão possíveis.

// Verbal: quando um homem te xinga, te agride com palavras. É o caso de quando somos chamadas de vadias, por exemplo.

// Psicológica: comum em relacionamentos – sejam amorosos, familiares ou de trabalho – é quando um homem te desmoraliza. Pode acontecer com palavra ou atitudes, como fazer comparações com outras mulheres, rondar você de maneira a tentar te intimidar ao impor a presença dele, fazer você sentir culpa ou se achar pouco suficiente para ele de alguma forma.

// Patrimonial ou financeira: pode acontecer quando um homem controla o seu dinheiro de alguma forma, seja tendo acesso aos seus dados ou te chantageando de maneira que faça você usar o seu patrimônio em benefício dele.

// Física: empurrar, dar tapas, socos, puxar. Este tipo de agressão, apesar de ser um dos mais conhecidos, nem sempre recebe a atenção que precisa. É comum que  a vítima tenha medo de denunciar ou seja desencorajada.

// Sexual: forçar relações sexuais contra a vontade da mulher, tentar fazer sexo com a mulher inconsciente, sob o efeito de álcool ou outras substancias, e outras agressões que colocam a mulher como objeto do homem, a quem tem que obedecer sob ameaça física ou psicológica.

Entender que estar em uma relação abusiva não é sua culpa e, portanto, não há motivo para vergonha, é o pontapé inicial para uma jornada de autoconhecimento e autocuidado. E acredite, nada disso é exagero. Os números são assustadores: em dez anos, o número de mulheres negras assassinadas subiu 54% devido à deficiência do Estado em garantir às mulheres, principalmente das periferias, onde a maioria da população é negra, o acesso a políticas de proteção contra violência de gênero.

Não raramente, também precisamos lidar com nossos próprios preconceitos. Ao tomar conhecimento de casos de violência contra a mulher, é possível ler um sem-número de justificativas, que vão desde a roupa que a vítima usava, até o fato de a vítima não denunciar o agressor, fazendo com que as pessoas erroneamente atribuam isso a um suposto “gosto por apanhar”. Então comecem emanando o mantra: não existe mulher que gosta de apanha. Existe mulher humilhada e com medo demais para denunciar.

Então, quando falamos de relacionamento abusivo e de ciclos de violência, precisamos nos munir de conhecimento sobre leis, empatia e muita boa vontade para dar de cara com a realidade. Além de força para buscar ajuda.

Amor não é feito pra doer. Se te humilha, te faz sentir culpada, te cerca de todos os lados e te controla, não é amor, é posse.


Gabriela Moura

Gabriela Moura

Relações públicas com 11 anos de experiência em comunicação corporativa e comunicação digital, formada em estudos do idioma e da cultura árabe e especialização em Sociopsicologia. Co-fundadora do coletivo Não Me Kahlo, com o qual lançou o livro #MeuAmigoSecreto: feminismo além das redes, onde são debatidos assuntos sobre gênero e raça.

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